sexta-feira, 27 de novembro de 2009

PAZ ACALORADA

Quando uma porta se fecha, é aberta uma janela. Mas e quando cai um muro, o que sobe? Quando desmorona o escudo, é conhecido o cavaleiro – a realidade é apresentada. A Guerra era fria, só que a coisa esquentou pelo mundo: Bin Laden armado pelos EUA para enfrentar a URSS; em Cuba, mísseis apontados para o norte do continente; Duas Coréias; Duas Alemanhas; Duas ideias – mas uma prática nem tão diferente; Aquela menina que você conhece, com o peito partido tão cedo, queimada no Vietnã; Infelizmente, o Che que partiu, mártir que virou, também não era o que você, leitor, deseja de fato.
Numa coincidência que remexeu Marx no túmulo, o concreto cedeu duplamente: foi derrubado, mais que um muro, a crença num mundo pautado nas necessidades; Efeito em cadeia, peças de dominó em queda sobre outras peças. Alexis, que perdeu sua irmã para o Governo Militar, jamais poderia perdoá-lo, mas exatamente por isso também não tinha coragem para um enfrentamento. Por conseguinte, mesmo com seus olhos temporariamente vermelhos de raiva, seu lugar era a inércia. Com o término da ditadura, talvez houvesse tempo do sonho socialista. Não, não deu. A União das Repúblicas Socialistas Soviéticas se esfacelou e, de repente, tudo ficou muito confuso, não havia mais referências, era uma batalha perdida, sem companheiros. O mundo estava em paz, dizia o telejornal.
Agora, Alex já podia viver para ele mesmo, sem a amargura da Ditadura que o impedia de ser livre. Afinal, o mundo estava em paz e não havia exatamente ao que se contrapor. Nesse cenário, é muito mais difícil apontar os vilões. Alguns anos depois, Alexis voltou ao Brasil, com Doutorado sobre Meio Ambiente. Tornou-se uma referência, pois o novo inimigo era a natureza, visto que o capitalismo é justo…mas, não, a natureza é amiga…então, por que se luta contra ela? Ah, não é contra ela? É contra o que fazemos com ela… hum. Mas então é culpa do capitalismo? Não, não. A culpa é do indivíduo, segundo o que Alexis leu onde mandavam ver.
Apresentava palestras sobre aquecimento global, ilhas de calor, derretimento das calotas polares. Tudo verdadeiro e preocupado com o mundo. Mas qual mundo? O fato é que caiu um muro, mas emergiu uma bolha. Transparente, porém, aparentemente, intransponível. O doutor percebia a pobreza ao seu redor, mas ou não era culpa e responsabilidade dele ou, se era, ele não sabia o que fazer e, na dúvida, nada fazia de fato. Não desperdiçava água, mas jogava fora sua comida – separada para a coleta seletiva, é claro.
Nos últimos anos, tem trabalhado como consultor de uma transnacional, num setor de marketing referente ao ‘Desenvolvimento sustentável’ – uma proposta de um capitalismo menos predador e mais parasita. Entretanto, outro dia, tal empresa demitiu mais de dois mil funcionários, por causa de queda brusca em suas ações na bolsa. O emprego de Alexis, hoje, é colaborar com elementos críticos às conseqüências da produção em massa, mas a empresa nem por isso produz menos.
Alexis comprou outro carro e foi comemorar o sucesso de uma campanha publicitária, num restaurante nada modesto. Pegou o maldito engarrafamento. Fazia tanto calor que era possível ver o vapor tremendo a imagem do mundo. Por ali, veio um menino pedir para lavar o vidro da frente, mas ele estava irritado. Mal olhou pro garoto, quase invisível – seu sucesso fez do peito uma muralha, porque o empregado do futuro deveria estar acima de sentimentalismos, dizia o chefe de seu departamento.
Bebeu um pouco mais, nesse jantar. Saiu de lá com dois amigos a fim de procurar mulheres. Foram a uma boate, beberam um pouco mais do que o a mais. Não conseguiu ninguém, de tão irritantemente fora de si. Pegou o carro, e não discernia que as luzes na Lagoa eram da árvore de Natal e no morro eram tiros de fuzis. Foi atrás de prostitutas, parou na calçada e colocou uma pra dentro do carro. Não conseguiu fazer muita coisa além de demonstrar como aquela mulher deveria largar aquela vida – nada fácil.
Largou ela pela rua, irado com sua contínua impotência que ele chamava de liberdade. Pegou uma rua errada e, sem conhecer o lugar, parou pra ver o que acontecia com um de seus pneus, que parecia furado. Azar, teria de encarar seu algoz. Alguém esperava a chance de conseguir dinheiro pr’uma chuteira como a do Cristiano Ronaldo e um cordão de ouro, com a inicial de seu nome. No peito já havia um “J”, um João Ninguém perto de Alexis; Ele era mais novo que o filho de Alexis, devia ter uns quinze ou dezesseis anos. O menino que não era do tráfico nem nada, apenas queria ter o que via na vitrine, assim como você, que me lê, quer. Eis que apontou a arma para Alexis e gritou “Perdeu, perdeu”. Alexis correu em volta do carro e o menino nervoso, sem saber o que fazer, ficou atrás dele, esdruxulamente correndo em círculos. Alexis foi em direção a uma rua, infelizmente sem saída, e o menino que poderia levar o carro, ainda com a chave na ignição, coberto de adrenalina – talvez também alterado por alguma droga – disparou. Precisou de quatro balas para matar Alexis, o qual em seus momentos derradeiros, teve seus olhos marejados, vermelhos novamente, por saber que ia morrer e por perceber que o culpado de sua morte sabia tanto o que fazer quanto ele. A muralha no peito de Alexis foi destruída, mas era tarde.
A empresa de Alexis fez questão de procurar o garoto, que acabou sendo preso depois do alarde nos jornais. O coitado já tinha dezoito anos, apenas era raquítico devido à má alimentação quando criança. Na cadeia, não haveria reabilitação, pois não seria possível mudar seu comportamento se na prisão a realidade reifica tanto o que há do lado de fora e, quando se está do lado de fora, a realidade é a mesma de antes.
Alexis morreu e a empresa em que trabalhava também derrubou algumas árvores, nesse mesmo dia. Um grupo de ativistas invadiu a cede, pichou paredes e destruiu alguns vidros. Também não sabiam fazer muito mais que isso, porque na verdade todos são responsáveis pela realidade. As coisas só são o que deixamos que sejam e cada um é exatamente aquilo que poderia ser, dentro da gama limitadíssima de possibilidades que a vida proporciona.
E você, leitor, ser híbrido que é, provavelmente de classe média, não sabe com quem concordar, o que pensar e, principalmente, o que fazer. Afinal, é evidente que há injustiça no mundo, só que você não consegue ser contrário na prática, porque é beneficiado por ela, miseravelmente, e se contenta com isso. Mas, estúpido que suponho não ser, sabe que é preciso mudar, só que não a boca. Lembre-se que, neste exato momento, alguém não tem o que colocar nela e você, caso queira mais que comida e palavras tolas para enchê-la, saiba que ideologias não morrem, entram em coma.
Marcel Albuquerque

Um comentário:

Beth Cerquinho disse...

Um texto e tanto...despido de hipocresia..tá í..gostei e vou te seguindo.
Abraços