terça-feira, 30 de dezembro de 2008

LIÇÕES DA MATRIX

A sua vida e tudo que você conhece são uma grande ilusão criada por um big computador chamado Matrix. McDonalds, iPods, Escolas, Igrejas, Praias, Mulheres, Carros Velozes, Sexo, os seus Amigos e a sua Família, Salões de Beleza, CLT, Rede Globo, Internet, Férias etc, não passam de sofisticados programas de computador criados pela Matrix para fazer você levar uma vida sem questionamentos, passivo, distraído, dopado, alienado.

Estamos na verdade no ano de 2.199, e não 2008. Faz duzentos anos que uma grande guerra entre uma avançada tecnologia de inteligência artificial criada pelos homens transformou a raça humana em fonte de energia de computadores. 6 bilhões de pessoas estão aprisionadas em casulos, distribuídos entre grandes plantações de seres humanos. A raça humana não é mais concebida, somos cultivados.

Os seres humanos, aprisionados nos casulos, não demonstram a mínima vontade de acordar porque enquanto conectados a Matrix, são submetidos a sonhos (o mundo atual) que lhes preenche emocionalmente, espiritualmente e intelectualmente. No mundo criado pela Matrix não existe destino, não existe livre arbítrio, não existe amor verdadeiro, tudo é uma grande ilusão.

Afinal, o mundo de sonhos criado pela Matrix é na verdade um grande programa de computador onde tudo está programado para acontecer, tudo foi desenvolvido com o propósito de não ter propósito, tudo é um grande game, a là Age of Empires, bits e bytes, zeros e uns, o indivíduo não controla nada, apesar de ter sempre a ilusão que controla algo, ou é controlado por alguma força espiritual.

Essa é a história por trás da fantástica trilogia de Matrix, filme lançado originalmente em 1999, e que arrebatou imediatamente uma quantidade enorme de fãs (como eu) e críticos ferrenhos às suas idéias espirituais malucas e efeitos especiais exagerados.

Você abandonaria a Matrix se soubesse que fora dela não tem Starbucks?

Você abandonaria a Matrix se soubesse que fora dela não tem Igreja?

Você abandonaria a Matrix se soubesse que fora dela não tem higiene?

Você abandonaria a Matrix se soubesse que fora dela não tem emprego?

É claro que não.

Quem escolheria trocar um mundo confortável e seguro, ainda que controlado por máquinas, para viver trancafiado no centro da Terra, sem Sol e sem Verde, se esgueirando por boeiros e fugindo de rôbos sentinelas como se fosse um inseto de esgoto?

Bem, poucas pessoas, certo?

Todos os dias milhares de pessoas trocam de emprego, largam suas atuais posições e partem para a empresa "Novos Desafios". Elas trocam salários medianos por melhores salários, empregos informais por carteira assinada, chefes imbecis por gerentes profissionais, empresas distantes por firmas locais.

Essas pessoas, que fazem essa troca, realmente estão atrás de "novos desafios", ou estariam atrás de "Novas Seguranças e Comodidades"?

Para mim, a empresa "Novos Desafios" é um lugar onde ganha-se a metade do salário, possui-se a metade dos recursos, tem-se o dobro de responsabilidades, o quáduplo de chances de quebrar, além de dez motivos porque talvez não dê certo. Isso que se chama "Novos Desafios"!

Na próxima vez que você escolher mudar de vida porque o emprego atual não te apresenta maiores desafios, você procurará uma empresa do tipo "Novas Seguranças ou Comodidades" ou a verdadeira "Novos Desafios"?

Você estaria saindo da Matrix ao trocar o marasmo pela segurança?

Você estaria saindo da Matrix ao trocar a complacência pela felicidade?

Eu acredito que não.

Matrix é um filme riquíssimo em referências e dezenas de conceitos filosóficos. Eu poderia escrever um livro chato prá caramba sobre as diferentes leituras que é possível fazer sobre o que aparece no filme. Mas o ponto não é esse. A presença de diferentes referências, a todo momento antagônicas, tem uma única finalidade: te dizer que a realidade não existe, a verdade não existe, e se você quiser optar por ter uma visão mínima da realidade ou verdade, você deve optar por ter uma visão ampla e antagônica das coisas.

O filme alterna entre temas relacionados ao corpo e a mente, o racional e o emocional, o determinismo e a livre escolha, o consumo e o reaproveitamento, a tecnologia e a humanidade, a inteligência artificial e a inteligência humana, o controle e a liberdade, o objetivo e o subjetivo, o arcaico e o moderno.

Durante toda a trilogia, Morfeu e sua trupe têm cabeça para hackear o mainframe da Matrix, construir e viver dentro de uma nave que paira no ar, mas se vestem com roupas arcaicas, atacam com armas comuns, e usam o telefone com disco e fio para entrar na Matrix.

Neo e Trinity, o Escolhido e a Mocinha do filme, lutam contra o racial das máquinas e o pragmatismo de programas de computador durante os três filmes da trilogia, mas é o Amor, de uma maneira inexplicável, que os ajuda a superar as adversidades, inclusive a morte de ambos.

O recado do filme é claro, se você quiser da Matrix, você tem que jogar e conhecer os dois lados de uma mesma moeda, NUNCA se apegar a apenas um único conceito ou filosofia, ouvir o quê vem da direita e o quê vem da esquerda, o quê desce do topo, e o quê sobe para o topo, sabe lidar com a burguesia e a favela, o samba e o rock.

Matrix significa Matriz, e tem relação direta com o conceito de matrizes matemáticas, aquelas tabelas com colunas verticais e linhas horizontais que interagem matematicamente entre si. Hoje, o conceito de matrizes foi além da matemática e é altamente explorado pelas grandes corporations para melhor organizar e distribuir os trabalhos e projetos.

Você já trabalha em uma empresa que tem organização matricial? Não? Não se preocupe, a Matrix vai te achar!

A empresa com organização matricial se dá bem por vários motivos. As decisões rolam mais rápido, o conhecimento se espalha velozmente, o poder desce a ladeira, a organização Matrix desce o porrete no velho e arcaico organograma que emburrece qualquer empresa que teima em continuar utilizando essa invenção de Napoleão Bonaparte; na empresa matricial diferentes pessoas de diferentes locais passam a participar de projetos que antes não poderiam participar porque não se reportavam a determinada pessoa.

Por outro lado, o funcionário passa a ter vários chefes, e se tiver uma cabecinha limitada, fica perdido sobre quem é o seu verdadeiro chefe, quem deveria olhar pelo seu futuro, quem deveria fazer avaliação sobre o seu trabalho etc etc etc; os chefes, por sua vez, também entram em conflito sobre qual é o melhor uso a se fazer sobre determinado cidadão que ambos utilizam.

A Matrix prova-se uma coisa boa, mas prova-se também uma coisa ruim. Você tem sempre duas escolhas a sua frente, a pílula vermelha e a pílula azul. Prove dos dois remédios. Se decidir continuar na Matrix, não tem problema, boa sorte, é uma escolha de vida, talvez nem todos sejam como o Neo do filme, cheios de fibra, coragem e auto estima para lidar com a "Novos Desafios". Se decidir sair da Matrix, boa sorte, ninguém vai conseguir te dizer como a coisa vai terminar, apenas como vai começar. Um mundo sem regras, sem fronteiras, sem controle, sem limites; um mundo onde tudo é possível. Onde você vai chegar? Você escolhe. O tempo todo.

Neo, o escolhido, não se vê inicialmente como o messias da história. Morfeu e Trinity acreditam em Neo muito mais do que ele mesmo acredita em si. Entretanto, uma pequena vitória aqui e outra ali são o suficiente para enchê-lo de confiança. Neo termina o primeiro filme destruindo Smith, o super agente da Matrix, e voando como o super homem e o messias que é.

A história poderia morrer aí. Neo vence os agentes da Matrix, ponto final.

Mas não, o melhor que Matrix tem a ensinar ainda está por vir. Inspirado por Neo, Smith renasce Livre e Desobediente. Smith diz, "Depois de lutar com você, eu sabia o que tinha que fazer, mas eu não fiz. Eu fui compelido por você a desobedecer a Matrix. Você me inspirou a ser livre. Hoje eu não sou mais um agente da Matrix. Eu sou livre. Mas por quê eu sou livre? Antes, como máquina, eu tinha um propósito, agora como um ser livre eu não tenho. Neo, qual é o meu propósito?"

E eis que surge o ensinamento supremo da trilogia, "Máquinas precisam de propósito para funcionar, Máquinas acreditam em destino, Máquinas acreditam em um controlador geral da nação que conecta todas as coisas, nada poderia funcionar por acaso; Seres Humanos Livres não precisam de propósito para funcionar, nem amor, nem dinheiro, nem fama, nem nada, Seres Humanos Livres acreditam que fazer alguma coisa esperando outra como recompensa é errado, as pessoas deveriam fazer as coisas por livre escolha, sem propósito, sem segundas intenções, se houver um propósito por trás, a ação deixa de ser verdadeira, deixa de ser humana, torna-se máquina."

A atitude livre de Neo enlouquece Smith que não consegue compreender como alguém pode funcionar sem um propósito.

Máquinas funcionam com propósito, e Seres Humanos sem propósito!?

EXATAMENTE!

Eu simplesmente escolho seguir em frente. E você?

NADA MENOS QUE ISSO INTERESSA!

QUEBRA TUDO! Foi para isso que eu vim! E você?

Ricardo Jordão Magalhães

2 comentários:

saulo bittencourt disse...

Apesar de nos dias atuais a programação do ser humano se encontrar sob forte poderio tecnológico, vale lembrar que esse processo começou há milhares de anos, na força bruta. Atitudes que tomamos hoje, nos foram implantadas por sistemas rudimentares há muito tempo. Ocorre que, no momento em que se começou a ameaçar os sistemas retrógrados com atitudes filosóficas, os sistemas encontraram apoio nas novas criações científicas, e as usam para evitar o uso da inteligência livre. Isso me parece pior do que a força bruta. Pois, dessa forma, destruiram a capacidade de sonhar; e implantaram um sonho fantasioso nas mentes indefesas.

Alexandre Gomes disse...

Hum... texto interessante. Começa defendendo a dialética e termina fazendo apologia à revolta (renegar todas as regras e padrões). Seria bacana se o autor lesse "Os Irmãos Karamazov". Uma das constatações de Ivan Karamazov era: "Se Deus não existe, tudo é permitido". A consequência dessa escolha (tudo é permitido) é bastante educativa. Feliz ano novo!