Catava esterco.
Ao contrário de tantos pretos, não andava cantando sua ocupação.
Puxava a carroça em silêncio, repicando um pequeno sino de cobre. Tinha
pudor.
Caminhava sempre pelas mesmas ruas, no mesmo horário, todos os dias.
As mucamas já o conheciam: antecipavam sua passagem e ficavam no aguardo
do sino.
Ninguém queria contato. As operações eram rápidas. A mucama saía
porta afora com o balde de esterco quente nas mãos, ele abria o tampão
da carroça, ela despejava ali a carga e voltava correndo para dentro.
Não falavam com ele.
Havia sempre respingos. Ao final da tarde, estava salpicado pela própria mercadoria.
Os tigres eram mais dignos. Temidos, até. O próprio nome impunha
respeito. Eram escravos fortes, que carregavam nos ombros os dejetos de
sua casa. Não passavam o dia lidando com os excrementos de terceiros.
Despejavam tudo na lagoa mais próxima e já voltavam para cuidar de
outras atividades.
Pensava muito nisso. Que ali, no barril do tigre, misturados aos
dejetos dos sinhôs e das sinhás, das mucamas e dos moleques, estavam
também os seus. O tigre carregava o próprio excremento. De algum modo,
aos seus olhos, isso lhes conferia dignidade.
Mas nem toda casa tinha escravos. Então, ele ainda era útil.
Gostava mesmo era de uma mulatinha da Rua da Ajuda. Era sempre ela
que trazia o balde. Mas nunca teve coragem de lhe falar. O esterco os
separava. Um dia, não apareceu mais e ele não teve coragem de perguntar
por ela. Ficou a lembrança daqueles dentes brancos. Tinha todos.
Ao final do trajeto, ele percorria a rua do Aljube até a Prainha. As
barcaças recolhiam os dejetos da Corte e os levavam para o outro lado da
baía, onde não havia gente para produzir tanto estrume.
Os galegos pagavam quase nada pelo esterco. Só valia a pena se
enchesse a carroça até a borda. Afinal, era recolhido de graça.
Conseguiria mais mendigando, era o conselho de sua mãe.
Mas ele gostava de saber que deixava a Corte mais limpa. Que o
esterco que recolhia se transformava em açúcar. Que tudo se transformava
em outra coisa. Que ele, que era tão baixo, tão preto, tão feio quanto
seu esterco, um dia também talvez virasse açúcar.


0 5 mil uivos:
Postar um comentário